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22 de novembro de 2008

Na minha janela

Na minha janela vejo outras janelas.
Na minha janela vejo pequenos mundos que se abrem e que se cruzam com o meu, mesmo sem desconfiar.
Vejo a azáfama dos outros e parada, defronte ao vidro frio e transparente, vou esperando. Não sei bem o quê. Não sei bem porquê.
Vou esperando e olhando.
Mas o relógio continua a rodar e não pára. O tempo passa depressa sem avisar. Os mundos que vejo da minha janela vão-se apagando hora a hora, minuto a minuto.
A sra idosa do prédio amarelo não passa mais a ferro, o sr de bigode não fuma mais o seu cigarro na varanda, a vizinha da frente não estende mais a sua roupa branca na corda e os miudos dos rés-do-chão não jogam mais à bola. O ritmo vai acalmando e as vidas, nas pequenas janelas que me envolvem, vão cessando o seu rodar.
A idosa, o sr, a vizinha ou os miúdos foram provavelmente dormir enquanto eu fico por aqui, de janela aberta, de luz acesa a velar-lhes o sono e a adivinhar-lhes os sonhos.
*

19 de outubro de 2008

Lá fora

A noite escura e fria embala os corações de todos os que lá fora esperam mais um amanhecer. As camas de cartão feito disfarçam a rigidez do chão ou do banco de jardim, e adormecem. Adormecem como quem abafa os sentidos do nada ter, como quem esquece a tristeza de ser sem ser, como quem perdoa a rigidez daquele chão que toda a noite os acolhe.

São sem tecto, são sem casa, são aquilo que todos um dia podemos vir a ser, mas que (ainda) não somos. A vida nalgum momento foi madrasta e não mãe para aqueles que sem pressa vêm a lua, sem romantismo observam as estrelas e do céu fazem o tecto, e do jardim fazem a casa, e da rua fazem a vida.

Os parques de estacionamento são o trabalho, a ocupação, a igreja é a esmola que ainda que mal garantida, é o possível pão do dia. E a baixa é o passeio. Não o passeio de quem passeia, mas o passeio que se torna irmão, familia, companheiro de um e outro dia.

Lá fora, a noite que embala estes filhos da rua, diz-me que é hora que dormir... Amanhã, mais um dia virá, e amanhã, a noite será menos fria, menos escura, menos madrasta, mais mãe.